quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Infertilidade

Postado por Nany às 2/15/2012 11:01:00 da manhã
Uma palavra feia, um grande monstro, daqueles bem grandes piores que o bicho papão, ou todos os que nos assustam na infância, adolescência ou idade adulta.
Nasci e cresci numa família onde as mulheres tinham medo que os homens olhassem para elas de viés senão pumba...estavam grávidas. Como dizia a minha vó (bisavó), bastava um sacudir as calças que tinha de ir procurar a parteira para um desmancho. Menos a minha mãe, que também teve problemas para engravidar de mim.
Cresci a querer ser mãe. A sonhar com o dia que teria os meus bebés. A cuidar deles, a dar-lhes banho, papinha, brincar com eles. Já tinha os nomes escolhidos, os meses de nascimento, a diferença de idades, a minha idade quando teria o primeiro e o segundo. E de repente....bem de repente não me puxaram o tapete, tiraram-me o chão, o céu, o mundo e o universo de uma vez.
Chorei tanto, mas tanto que nem sabem (quer dizer, sabem, pois quem passa por isto sabe).
Berrei, gritei, chateei-me com Deus, com o mundo, com todas as mulheres grávidas, em particular com aquelas que ora bolas, estou grávida outra vez, que grande chatice. Fiz as pazes com Deus, rezei muito, não fiz promessas mas prometi o meu coração. Comecei a suportar grávidas e a ser genuinamente feliz por elas, afinal não eram elas que me impediam de engravidar.
Odiei sempre o não penses que acontece, o vai de férias que vens de lá grávida. Apetecia-me perguntar a esssas mentes iluminadas se era uma mezinha que resultava com tudo ou com o facto de ser infértil.
Tive de programar o romance, o sexo, as posições, as almofadas debaixo do rabo. Fazer o que mandava a ciência e as mezinhas dos avós.
No dia em que soube estar grávida pela 1ª vez fiquei tão feliz, mas tão feliz que passava a vida a acariciar a barriga. Fui ao médico e.....cai no chão. Saco sim, o bebé não se desenvolveu. Internamento, curetagem. És forte e tal, aguentas firme. Tantas mulheres o fizeram e fazem, olha a prima da amiga da vizinha do outro...., e eu apetecia-me mandar essas pessoas para um certo sítio e não podia. Não pude fazer luto porque tinha de ser forte e tal, mas quando a força me faltou estatelei-me ao comprido e chorei tanto mas tanto que pensava não ter mais o que chorar. Valeu-me já ter o meu filho nessa altura.
A 2ª vez que engravidei, o medo, o pavor de acontecer o mesmo. Os valores da BHCG sempre foram tão fraquinhos. A placenta deslocada, a amniocentese, as contracções e o repouso às 20 semanas. Ele nasceu e eu venci, deu um pontapé na bunda da infertilidade.
Mas ela é grande e ora toma, queres outro vais ter de fazer tratamentos, sem anticoncepcionais nem nada. A contar dias, a medir temperaturas, a não pensar nisso. E engravidei pela 3ª vez, e tive medo (os valores da BHCG baixíssimos), tanto medo que nem revelava o nome dela, mas graças a Deus correu tudo bem e voltei a dar outro pontapé na bunda, daqueles que mandam a infertilidade para onde Judas perdeu as botas.
Então e depois? Depois a gaija aprendeu o caminho de volta, desapareceu-me com o DIU e mostrou-me que brincas brincas mas não engravidas.
Se dói? Dói, vai doer sempre. Já tenho 2 mas dói sempre. Não da mesma forma, não no mesmo sentido, é mais aquela sensação de saber que não conseguirei jamais engravidar sozinha.
Se tomo a pílula? Sim, controla-me as hormonas e outras coisas mais, o facto de ser um anticoncepcional é secundário. Não posso, aliás podemos, ter outro filho. Não é a idade, sendo um factor importante, são as condições de vida. Claro que a criança não iria passar fome, mas tenho consciência que não dá. Dá mas não dá, percebem o que quero dizer?
Ter uma criança não só são as fraldas, as papas e os leitinhos. É a educação, a escola, o vestir/calçar, o querer dar o melhor para os preparar para um futuro incerto.
Se queria ter o 3º? Sim, queria. Quero. Mas não dá. Como já disse, faz-me falta o Gabriel e/ou a Sofia. Talvez por causa do que aconteceu na primeira vez. Mas não vou fazer por isso, vou viver a vida fazendo pelo contrário.
A infertilidade está cá. Aceitei-a como parte de mim, tal como um braço ou perna, mas se eles não me definem, ela também não. Tenho os meus dois grandes amores, o amor-pai, a família, os amigos e a mim, tenho o direito e a obrigação de ser feliz. A infertilidade está fechada na gaveta. Eu sei onde, ela também. Ela que fique lá, eu vou viver a vida e tentar ser estupidamente feliz. Criar, educar os meus filhos e fazê-los estupidamente felizes.
O Gabriel? A Sofia? Numa próxima vida quem sabe.

6 comentários:

Sandra Neves on quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 às 11:13:00 WET disse...

Mesmo depois de sermos mães a maldita não nos larga e torna-se como que um fantasma! Continua a doer.
Beijinhos Grandes
Sandra

Mamã Petra on quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 às 11:29:00 WET disse...

Um beijinho grande, sofri á pouco um aborto, e confesso estou apavorada com medo de não conseguir engravidar.

Beijinhos

Maria Pereira on quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 às 11:46:00 WET disse...

Só mesmo quem passa pelo mundo da infertilidade sabe o que custa todo o caminho que temos de percorrer. E mesmo quando conseguimos ter êxito nunca esquecemos tudo o que passamos. A infertilidade tem apenas uma vantagem: as amizades que se fazem e os laços que se criam, que de outra forma não existiram

Bjs grandes

Maggie on quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 às 11:50:00 WET disse...

e eu vou dizer o quê?
até há pouco tempo ainda pensava mto nesta parte da minha vida, foram 7 anos em que deixei de viver, sinceramente não tenho fotos, memórias, lembranças, nada de bom aconteceu. Hoje tenho memórias de 7 anos sozinha, sem rumo, perdida e sem ver a luz no fundo do tunel. Foi mto duro mas aprendi que sou boa, que qdo quero sei vencer e vou sem medos. Hoje está lá guardada no bau das más memórias, onde já não vou diariamente. Hoje vejo que devia ter procurado ajuda, não o fiz e reconheço que fiz mal, mas a vida é para a frente e hoje estou bem e mto feliz.

Tudo de bom para ti Nany.

Bjo
Maggie

Maggie

Aline on quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 às 21:24:00 WET disse...

O teu post comoveu-me imenso. Felizmente, não sei o que é isso, mas entendo-te, pois não há alegria maior do que ser mãe. Nem quero pensar como continuaria sem ter filhos. Talvez acomodada à ideia, mas talvez incomodamente infeliz, como se me faltasse alguma coisa para ser feliz.
Eu adoraria ter 3 filhos, talvez por sermos 3 raparigas. Sempre quis ter 3 filhos e muito provavelmente vou ficar pelo 1º, pelas mesmas razões que não irás ter 3. Agora não dá e daqui a 2 ou 3 anos, será tarde. Vou fazer 39 este mês.
Temos que pensar que já somos felizes com os nossos filhos e já somos abençoadas.
És uma guerreira.
Beijinhos

Raquel on quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012 às 11:28:00 WET disse...

um desabafo genuino!!!
bjs

 

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